Tangible Sound Interventions

33 REMIXES

introdução

A realização do workshop 33 REMIXES abre imediatamente as portas ao debate e reflexão. As manobras, experiências e improvisos criativos aí praticados podem facilmente ser apelidados de atrocidades, destruição ou deterioração, e é precisamente esta falta de consenso que reveste o workshop de uma aura instigadora de pensamento. “Destruição ou criação?”, eis a questão. Estaremos nós a deteriorar uma obra já consumada ou, ao invés, a criar sobre ela uma nova? Até que ponto é importante para a nossa criação as características da anterior obra? É legítimo apropriamo-nos da criação de outrém? Estes são apenas alguns exemplos de questões que nascem naturalmente do workshop.

„If you develop an ear for sounds that are musical it is like developing an ego. You begin to refuse sounds that are not musical and that way cut yourself off from a good deal of experience.“

John Cage

contexto

Historicamente, e fazendo foque no cenário musical dada a natureza do workshop, são sólidos os relatos da partilha e apropriação existentes (consciente e socialmente aceite), entre compositores do período barroco e início do período clássico, concretamente de motivos e frases melódicas, ideias e abordagens. Uns séculos mais tarde, com o surgimento do fonógrafo e da possibilidade de registo sonoro, compositores como Bartók, Janáček e Ravel apoderaram-se de cânticos e melodias regionais para as suas composições sem que ainda fossem debatidas questões de apropriação/distorção cultural. O primeiro exemplo musical de infracção de direitos autorais envolve o compositor Rossini e a utilização por parte deste de um trecho que ingenuamente considerou ser popular, mas é conveniente ressalvar que o caso não ganhou proporções e facilmente ambas as partes chegaram a um entendimento cordato (Ross, 2007).

Seguem-se, já em meados do século XX, as criações de Pierre Schaeffer em que a sua musique concrète absorve e transfigura sonoridades do quotidiano, até aí nunca associadas ao universo musical (Schaeffer, 1977). Até então, pese embora o mais restrito círculo a que a cultura musical chegava, parecia imperar a noção de que a nota, a frase, o motivo, não eram propriedade de ninguém.

Avançando na cronologia, o nascimento de géneros musicais como o hip-hop e a disseminação da cultura remix, aliados ao desenvolvimento tecnológico e à proliferação da comunidade artística, trazem finalmente à luz as questões que até então não se punham e que este workshop instigou. A título de exemplo, as técnicas de crate digging, utilizadas recorrentemente por artistas associados ao movimento hip-hop e rap, assentam na utilização de pedaços musicais de outros criadores em composições novas (López-Serrano, Dittmar & Müller, 2017).

Nos finais da década de 80, John Oswald lança o controverso Plunderphonics CD contendo material de outros músicos, abrangendo género musicais que vão de Stravinsky a Elvis Presley, tendo sido confrontado com pesados processos legais, destacando talvez o single “Dab” e a acção penal que partiu de Michael Jackson (Oswald, 1985).

„If creativity is a field, copyright is the fence.“

John Oswald

Esta afirmação, proferida por Oswald, serve como resposta aos ditos processos e atesta a controvérsia que envolve as questões do direito autoral à época. Através dos exemplos históricos enunciados é pelo menos seguro considerar recente, face a toda a extensão temporal da arte, o conceito de direito autoral, e é imperativo ter esse fator em consideração no debate em causa.

 

universo audiovisual

Extrapolando para o universo do audiovisual, o documentário Good Copy Bad Copy (2007), criado por Andreas Johnsen, Ralf Christensen e Henrik Moltke aborda a questão dos direitos autorais e cultura no contexto da Internet, bem como a partilha de arquivos peer-to-peer e outros avanços tecnológicos. Um ponto central do documentário é a ideia de que a "própria criatividade está na linha", havendo a necessidade de chegar a um equilíbrio entre o conflito: proteger o direito dos autores que possuem propriedade intelectual vs. garantir o direito das gerações futuras para alterar e/ou criar.

Em Recut, Reframe, Recyle: Quoting Copyright Material in User-Generated Video, de 2008, somos confrontados com o facto de uma quantidade substancial de vídeos publicados online se servirem de material com direitos autorais. Mais ainda, enquadra essas produções em categorias e definições como o Fair Use ou Culture-Making (Aufderheide, Jaszi & Sieling, 2008).

O Fair Use é um direito de reutilizar trabalhos com direitos autorais sem uma licença em determinadas circunstâncias, nomeadamente, quando o valor para a sociedade é maior do que o valor para o proprietário dos direitos de autor.

Culture-Making define um processo em que aqueles que anteriormente eram conhecidos como público, consumidores, estão agora a afirmar-se como participantes na construção da cultura, isto é, o público intervêm na cultura através da associação e transformação dos objetos culturais. Assim, no campo do vídeo/imagem, surgem nove tipos de usos de obras protegidas por direitos de autor em vídeos online: sátira e paródia, comentário crítico ou negativo, comentário positivo, citando para incentivar a discussão, ilustração ou exemplo, uso incidental, reportagem pessoal ou diários, arquivamento de materiais vulneráveis ou reveladores e pastiche ou colagem (Aufderheide, et al., 2008). A paródia é um dos exemplos mais comuns de Fair Use “transformador”.

 

reflexões sobre o workshop

Durante o workshop, observou-se que muitos dos participantes não conheciam os artistas e as faixas musicais dos discos de vinil adquiridos. Por isso, os resultados foram mais experimentais, sendo raros os casos em que a intervenção no vinil e na capa, tinha fortes citações que visavam incentivar a discussão. Em casos como a obra “Portuguesa Bonita” de José Cid e “Quarteto Paraguayo” de Digno Garcia observa-se uma transformação provocada pela Sátira e Paródia, visando alguma diversão sobretudo a nível visual. A nível sonoro, os vinis sofreram transformações físicas por diversos materiais, tais como o xis- ato, tesoura e fita-cola, não havendo um controlo sobre o resultado final. Na alteração produzida no disco “Take My Breath Away” de Berlin, houve a intenção de reproduzir no vinil a emoção sentida ao comprá-lo, sendo no entanto curioso notar que ao reproduzi-lo, a sonoridade não sofreu qualquer alteração perceptível face ao original.

Ademais, com realização do workshop tomamos consciência de que, ao adquirir uma obra criativa (neste caso concreto, um álbum musical), tornamo-nos proprietários do objecto (o disco de vinil e respetiva capa) que contém a dita obra criativa (musical e visual) mas simultaneamente apercebemo-nos de que não somos donos da obra. Somos, assim, detentores do veículo da informação mas não do seu conteúdo. Posto isto, constatamos ao longo do workshop que não é possível intervir ou alterar apenas o objeto/veículo deixando a obra criativa incólume. O meio e a respectiva mensagem são inseparáveis (McLuhan, 1964).

Ao alterarmos o objecto estamos portanto a actuar directamente na obra, e podemos reflectir sobre o valor dessa acção. Do lado do argumento da destruição, corrompemos voluntariamente uma obra de outro autor, mas no outro lado do espectro da argumentação paira a criação de uma obra nova que se reveste de um valor maior dada a sua unicidade.

Somos simultaneamente “destruidores-criadores” e é inevitável a analogia com os recursos mais básicos de cada arte: todo o pintor é um “destruidor-criador” de cores, todo o realizador o é no que concerne às imagens, todo o músico cria e destrói notas e tempos. Na génese da criação, com a devida ampliação das ferramentas e recursos utilizados, toda a obra nasce de apropriações, utilizações, destruições e reutilizações.

 

referências

Ross, A. (2007). The Rest is Noise: Listening to the Twentieth Century. Fourth Estate.

Schaeffer, P. (1977). De la Musique Concrète à la Musique Même. Brunet, Sophie (ed.)

López-Serrano, P., Dittmar, C., Müller, M. (2017). Finding Drum Breaks in Digital Music Recordings. International Audio Laboratories Erlangen.

Oswald, J. (1985). Plunderphonics, or Audio Piracy as a Compositional Prerogative. Wired Society Electro-Acoustic Conference,Toronto.

Aufderheide, P., Jaszi, P. & Sieling, N. (2008). Recut, Reframe, Recycle: Quoting Copyrighted Material in User-Generated Video. School of Communication, American University.

McLuhan, M. (1964). Understanding Media: The Extensions of Man. MIT Press.

Nielsen, A. (2007). Good Copy Bad Copy. Disponível em: www.goodcopybadcopy.net

Johnsen, A. (Producer), & Ralf Christensen, R., Johnsen, A., Moltke, H. (Directors). (2007). Good Copy Bad Copy. [Documentary]. Denmark: Rosforth.

Ferguson, K. (Producer & Director). (2015). Everything Is A Remix. [Documentary]. United States of America.